Onde está Deus?
A trágica morte de um sacerdote, no Equador, durante a celebração da Missa, atingido pela queda de uma cruz, impressiona-nos profundamente. Ainda mais quando, pouco antes, falou da “inevitabilidade da morte”. Perante acontecimentos, nasce espontaneamente a pergunta: Onde está Deus? E eu, escuto a devolução eterna da pergunta dirigida a Adão no paraíso terreal e, hoje, a todos nós: “Onde estás”? (Gn. 3,9)
Esta não é uma pergunta nova. É a pergunta de Job, de muitos profetas, dos Salmos, de Maria e Marta diante da morte de Lázaro, e de tantos homens e mulheres ao longo da história. É também uma pergunta que o próprio Evangelho acolhe.
Quando falaram a Jesus sobre o sangue de alguns galileus derramado por ordem de Pilatos e da tragédia da torre de Siloé, que caiu e matou dezoito pessoas, Ele respondeu:
“Julgais que esses galileus eram mais pecadores que todos os outros galileus por terem assim sofrido? Não, digo-vo-lo Eu; mas se não vos arrependerdes, perecereis todos igualmente. E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé, e os matou, eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo.” (Lc. 13, 2-5)
Jesus rejeita claramente a ideia de que as vítimas foram castigadas por Deus ou que morreram por serem piores do que os outros. A queda da torre foi uma tragédia, não um castigo divino e todos necessitamos acolher a necessidade de conversão ao Evangelho.
O mesmo se pode dizer desta morte do sacerdote. Não podemos afirmar que Deus quis aquele acidente, nem que o provocou para transmitir uma mensagem. Vivemos num mundo onde existem leis da natureza, fragilidades humanas, acidentes e imprevistos. Muitas vezes, Deus não impede o sofrimento, mas nunca abandona aqueles que sofrem.
Então, onde está Deus?
Deus estava naquele altar, onde o sacerdote celebrava o mistério da morte e ressurreição de Cristo.
Deus estava na sua palavra, quando lembrava ao povo a verdade que todos preferimos esquecer: a nossa vida é passageira.
Deus estava junto daquele padre, acolhendo-o no momento da sua Páscoa definitiva.
E Deus continua presente no sofrimento, na comoção e nas lágrimas daqueles que ficaram e choraram a sua morte súbita.
A coincidência entre as palavras do sacerdote sobre a morte e o acidente que se seguiu não deve ser interpretada como um sinal mágico ou uma profecia. Contudo, para um crente, pode tornar-se um forte apelo espiritual: a vida é breve, ninguém conhece o dia nem a hora, e cada Eucaristia deve ser vivida como encontro verdadeiro com Cristo.
A fé cristã não responde ao sofrimento com explicações fáceis. Responde com uma Pessoa: Jesus crucificado e ressuscitado. Na cruz, Deus não ficou distante da dor humana. Entrou nela. E na ressurreição mostrou que a morte não tem a última palavra.
Perante acontecimentos como este, talvez a atitude mais cristã seja a do salmista: “Ainda que eu atravesse os vales tenebrosos, não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo” (Sl 23).
Não compreendemos tudo. Nem Jesus prometeu que compreenderíamos tudo. Mas prometeu-nos que nunca caminharíamos sozinhos. E é essa presença fiel de Deus, mesmo no meio do mistério da morte, que sustenta a esperança cristã.
António Novais
Last modified: 20 de Outubro, 2026
